
Um dos territórios mais preservados da Amazônia brasileira acaba de revelar uma riqueza biológica ainda pouco conhecida pela ciência. Um levantamento científico realizado no Parque Estadual Chandless identificou 78 espécies de formigas arborícolas, espécies adaptadas para viver, caçar e construir em árvores e folhagens, distribuídas em 23 gêneros e sete subfamílias, além de registrar quatro espécies inéditas para o Acre.
A pesquisa foi desenvolvida por pesquisadores do Instituto Federal do Acre (Ifac), Universidade Federal do Acre (Ufac), Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Ocidental (PPBio-Amoc) e Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), sob coordenação da pesquisadora Patrícia Miranda, doutora em Ecologia.

O estudo integra uma série de pesquisas voltadas à ampliação do conhecimento sobre a fauna amazônica e reforça o potencial do Acre como uma das regiões mais promissoras para investigações científicas sobre a biodiversidade na Amazônia Ocidental. Além de ampliar significativamente o conhecimento sobre as formigas arborícolas, os resultados ajudam a compreender melhor a distribuição das espécies e o funcionamento dos ecossistemas florestais.
Localizado em uma das regiões mais remotas da Amazônia brasileira, o Parque Estadual Chandless mantém cerca de 99,96% de sua cobertura florestal preservada. O acesso à unidade é realizado principalmente por via fluvial, após mais de oito horas de navegação pelo Rio Purus a partir do município de Manoel Urbano.

Foi nesse cenário de floresta praticamente intacta que os pesquisadores realizaram as coletas, entre os dias 12 e 20 de dezembro de 2025. Utilizando diferentes métodos de amostragem direcionados a formigas da vegetação instalados em trilhas no interior da unidade, a equipe conseguiu registrar espécies com hábitos variados, incluindo formigas de atividade noturna, ampliando a representatividade do levantamento.
O resultado foi expressivo. O registro de 78 espécies arborícolas é considerado elevado, mesmo quando comparado a outros estudos realizados no Acre e em diferentes áreas da Amazônia. Mais do que isso, as análises indicaram que a riqueza local ainda não foi totalmente documentada.

“O levantamento demonstra que o Parque Estadual Chandless possui enorme potencial para pesquisas em biodiversidade. A elevada riqueza de espécies registrada, a descoberta de novos registros para o Acre e a indicação de que ainda existem espécies não amostradas mostram que a região é um importante reservatório de diversidade biológica. Os resultados reforçam que o parque pode gerar novas descobertas científicas e desempenhar um papel estratégico na conservação e no conhecimento da biodiversidade da Amazônia brasileira”, explica Patrícia Miranda.
Entre os resultados mais relevantes está o registro inédito de quatro espécies de formigas no Acre. Embora essas espécies já fossem conhecidas em outras regiões da Amazônia, sua ocorrência no estado amplia o conhecimento sobre a distribuição geográfica da fauna amazônica e evidencia lacunas ainda existentes sobre a biodiversidade da Amazônia Ocidental.
Segundo os pesquisadores, a descoberta demonstra que áreas remotas e pouco amostradas continuam revelando informações importantes para a ciência.

“O principal resultado não está apenas na ampliação da lista de espécies, mas na demonstração de que ainda conhecemos muito pouco sobre a biodiversidade presente em regiões preservadas da Amazônia. Esses dados são fundamentais para pesquisas futuras em ecologia, biogeografia, conservação e monitoramento ambiental”, destaca o pesquisador Ricardo Eduardo Vicente, especialista da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), responsável pela identificação das espécies.
A confirmação oficial dos novos registros dependerá da publicação dos resultados em periódico científico, processo que está em fase de preparação pela equipe de pesquisa.
A expedição foi resultado de uma ampla colaboração institucional. Também participaram das atividades de campo a mestranda Maiara Bento, do Programa de Pós-Graduação em Ciência, Inovação e Tecnologia para a Amazônia (PPG-CITA), e os estudantes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Ifac, Ruan da Silva e Ítalo Armes.
A Sema contribuiu com apoio logístico e acompanhamento das atividades em campo por meio da gestora da unidade, Jomara Katrine Vitoriano, e do técnico Ricardo Plácido. O gerenciamento logístico foi realizado pelo coordenador do PPBio no Acre, Marcos Silveira, da Ufac, enquanto o PPBio-Amoc, sob supervisão técnica de Fabrício Baccaro, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que apoiou e financiou a realização das atividades.

Os resultados indicam que a diversidade encontrada pode representar apenas uma parcela da riqueza biológica existente na região. Por isso, uma nova expedição científica já está prevista para o período de estiagem, entre junho e agosto, com o objetivo de ampliar o esforço amostral e aprofundar os estudos sobre a fauna de formigas arborícolas da Amazônia acreana.
Administrado pela Sema, o Parque Estadual Chandless conta com apoio financeiro do Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) e abriga uma das maiores riquezas biológicas da Amazônia Ocidental. Dados do plano de manejo da unidade registram mais de 1.300 espécies catalogadas entre aves, mamíferos, insetos e plantas.
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