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Igrejinha Centenária: 100 anos de fé, memória e identidade em Guajará-Mirim

Da missão pioneira à memória viva que moldou a cidade e sua gente.

Redação
Por: Redação Fonte: ALE-RO
25/01/2026 às 11h55
Igrejinha Centenária: 100 anos de fé, memória e identidade em Guajará-Mirim
Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro antes da revitalização (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO)

O ano de 2026 trouxe mudanças, renovações e, indo além, uma conexão profunda entre o presente e o passado, testemunhada de perto pelos habitantes de Guajará-Mirim e da região. No dia 25 de janeiro, a comunidade acompanha a inauguração da revitalização da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que celebra, nessa mesma data, seus 100 anos de história.

Poucos conhecem o papel da Igreja Católica no desenvolvimento do Brasil e, especialmente, da região Norte. Antes mesmo de existir oficialmente a cidade de Guajará-Mirim, a “igrejinha” — como é conhecida carinhosamente — já se fazia presente como posto missionário. Em 1921, Dom Luiz Marie Galibert, bispo de Cáceres, criou em Guajará esse posto, marco inicial da presença católica organizada em um território que, à época, ainda pertencia ao estado do Mato Grosso. Cinco anos depois, em 25 de janeiro de 1926, essa missão se consolidaria na igreja que hoje celebra seu centenário.

Foto: Reprodução/ALE-RO
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A Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro ao longo dos anos (Foto: Divulgação) 

Quando a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi inaugurada, em 1926, Guajará-Mirim ainda não era Prelazia nem município consolidado. Entre 1926 e 1929, a igreja sustentou a vida religiosa de um território distante, marcado pelos rios, pela floresta e pelas dificuldades de acesso. Foi essa presença contínua que levou, em 1929, à criação da Prelazia de Guajará-Mirim, coincidindo com a criação do município. E foi sobre essa base já viva que, em 1932, chegou Dom Francisco Xavier Rey, encontrando uma igreja erguida e uma comunidade pronta para crescer.

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em construção (Foto: Arquivos da Diocese de Guajará-Mirim)

Dom Francisco Xavier Rey

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Dom Francisco Xavier Rey, figura de grande importância no desenvolvimento de Guajará-Mirim e região (Foto: Arquivos da Diocese de Guajará-Mirim) 

Ao perguntar à população sobre a criação da igrejinha, muitos atribuem sua construção a Dom Francisco Xavier Rey. Embora isso não seja historicamente correto, Dom Rey tornou-se uma das figuras mais marcantes da história da paróquia e do próprio município de Guajará-Mirim.

Ele chega à cidade em janeiro de 1932. No dia 23, desembarca pela lancha Horto Barbosa, acompanhado de padres e frades franciscanos da Terceira Ordem Regular. Dois dias depois, em 25 de janeiro — a mesma data da inauguração da igrejinha — é empossado como primeiro prelado da recém-criada Prelazia de Guajará-Mirim. Tinha apenas 29 anos.

Em carta ao Superior Geral Franciscano, escreveu ao chegar: “Aqui tudo é novo, tudo é grande, tudo é feito para satisfazer os corações mais ardorosos.” A frase sintetiza o espírito de quem encontrou uma igreja simples e uma missão imensa.

Desde o início, Dom Rey compreendeu que evangelizar aquela região significava ir além do altar. Voltou-se especialmente para a educação, impulsionando a criação de dezenas de escolas ao longo do Vale do Guaporé. Em 1933, fundou o Colégio Santa Terezinha, que mais tarde se tornaria o Colégio Nossa Senhora do Calvário, responsável por formar gerações de professoras ribeirinhas que levariam o conhecimento de volta às suas comunidades.

A saúde também foi prioridade. O atendimento domiciliar aos doentes resultou, em 1946, na criação do Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Em 1948, Dom Rey é sagrado bispo e, em 1956, lança os alicerces da Catedral Nossa Senhora do Seringueiro, símbolo de uma igreja que crescia junto com a cidade. No campo da comunicação, apoia a fundação da Rádio Educadora de Guajará-Mirim, fortalecendo o vínculo entre fé e cotidiano.

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro após sua revitalização, em 2024 (Foto: Jornal “O Mamoré”) 

Missionário por essência, destacou-se ainda como defensor dos povos indígenas, liderando iniciativas pioneiras de aproximação e proteção dos Oro-Wari, em um tempo em que esses povos viviam sob ameaça constante.

Ao longo de mais de três décadas, Dom Francisco Xavier Rey ajudou a moldar não apenas a Igreja, mas a própria identidade social, cultural e humana de Guajará-Mirim. Por isso, mesmo não sendo o construtor da igrejinha, seu nome se confunde com a história dela — e com a memória afetiva de quem viveu esse tempo.

Contos de quem viveu

Mais do que datas e obras, a história da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é feita de lembranças, vivências e afetos. Para muitos moradores, falar da igrejinha é falar da própria vida.

Entre essas vozes está a de Seu Paulo Saldanha, escritor, memorialista e testemunha de diferentes fases da história de Guajará-Mirim. Sua relação com a igrejinha começa cedo, ainda na infância.“Eu passei a minha infância e juventude aqui. Fui coroinha, me casei aqui e batizei um neto aqui. Essa igreja faz parte da minha vida.”

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Paulo Saldanha, memorialista e escritor que passou sua vida inteira em Guajará-Mirim (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO) 

Para ele, a igrejinha nunca foi apenas um prédio religioso, mas um espaço onde a comunidade se reconhece e se constrói coletivamente.“Quem passa aqui e vê a igrejinha não tem noção do quanto ela tem uma história. Uma história que vai além desse prédio, porque tem escola, tem hospital, tem educação, tem cultura. A igreja vai muito além da fé.”

Entre os elementos mais simbólicos dessa história, Seu Paulo chama atenção para um detalhe que atravessa o tempo quase em silêncio: a cruz original, instalada ainda em 1926, antes mesmo da construção da torre. Segundo ele, a cruz foi mandada implantar por seu tio-avô, o Coronel Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha, um dos personagens centrais da história política e social de Guajará-Mirim.

“Aquela cruz ali é original, foi colocada em 1926. O templo começava dali para lá. Não tinha torre ainda. Ela está ali até hoje.”

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A cruz original permanece até hoje no telhado da paróquia, representando a conexão entre o passado e o presente (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO) 

Essa memória ganha forma e profundidade na crônica escrita por Seu Paulo, A Cruz do Coronel, onde ele relata o momento em que descobre a história da cruz:

“Confesso que eu desconhecia a história da cruz do Cristo que o Cel. Saldanha mandara ali fixar. O bispo emérito me conduziu até o ângulo da visão que me permitiu enxergar, na parte posterior da torre, a cruz do coronel.”

Na crônica, ele relembra que, diante da ausência de um templo para reunir os fiéis, seu tio-avô utilizou recursos próprios para viabilizar a construção da primeira igreja católica da cidade, que viria a ser dedicada a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

“Valendo-se de seus próprios recursos, fez erguer o templo católico local, que acabou sendo entregue à cidade como um tributo de fé.”

Para Seu Paulo, a cruz permanece como símbolo de uma história que alguns registros tentaram silenciar, mas que continua visível, firme e soberana.

“Calar-me representaria omissão. Querendo alguém ou não, ele faz parte da história da Amazônia.”

Ao lado da memória afetiva, a história da igrejinha também é contada pelo olhar pastoral de quem acompanha a comunidade nos dias atuais. Para o padre Gustavo Orlandin, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro nasce e permanece com um forte caráter missionário. “Essa igreja tem uma característica missionária muito forte. Ela precisou se inculturar à realidade da missão, à realidade do povo daqui.”

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Padre Gustavo Orlandin, vigário paroquial (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO) 

Ao falar sobre Dom Francisco Xavier Rey, ele faz questão de situar historicamente sua atuação. “Dom Rey não inaugurou essa igreja, mas foi ele que reformou em 1935. Foi ele que deu esses moldes que a gente conhece hoje.”

Para o padre, Dom Rey compreendeu cedo que evangelizar naquela região significava cuidar das pessoas em todas as dimensões da vida. “O maior feito de Dom Rey foi a educação. Ele levou o conhecimento para o Vale do Guaporé.”

Essa visão também se reflete na arte presente na igreja e na catedral, como a Santa Ceia com indígenas. “Ela mostra o comprometimento da Igreja com os mais empobrecidos. É a opção preferencial pelos pobres, muito presente na nossa história.”

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Altar da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro com o desenho da Santa Ceia, onde os apóstolos são representados por seringueiros, ribeirinhos e indígenas (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO) 

A igrejinha, segundo ele, não pertence apenas ao passado.“Ela não se aposentou. Continua aqui, continua chamando o povo, continua sustentando a fé dessa comunidade.”

Mas a história da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro não se constrói apenas a partir de padres, bispos ou memorialistas. Ela vive também nas experiências do cotidiano.

É nas lembranças de Dona Neuza Carneiro, que casou, celebrou e ajudou a sustentar a igreja ao longo da vida, e na trajetória da professora Lílian da Silva Ferreira, cuja formação e vocação educadora caminharam lado a lado com a presença da Igreja e das escolas ligadas à Prelazia, que a história da igrejinha ganha rosto e voz feminina.

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Dona Neuza Carneiro, moradora que acompanhou de perto o desenvolvimento de Guajará-Mirim e a história da “igrejinha” (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO) 

Dona Neuza relembra a igreja como parte inseparável do cotidiano da cidade e da própria família.“A gente sempre esteve envolvida com a igreja, com as ações da comunidade, com as celebrações. A igrejinha sempre foi o lugar onde todo mundo se encontrava.”

Para ela, a restauração representa mais do que uma obra física: é a continuidade de uma história vivida por gerações.“Quando soube que a igrejinha ia ser restaurada, fiquei muito feliz. É como se ela fosse nascer de novo no dia em que completa 100 anos.”

Já a professora Lílian da Silva Ferreira, educadora há cinco décadas, destaca a ligação profunda entre fé e educação na formação de Guajará-Mirim.“A igreja sempre caminhou junto com a educação. Antes mesmo de ter tudo estruturado, a escola e a igreja eram o ponto de encontro da comunidade.”

Foto: Reprodução/ALE-RO
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Professora Lilian da Silva Ferreira, que também acompanhou de perto o trabalho da Diocese de Guajará-Mirim e a história da paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Foto: Priscila Melgar | Secom ALE/RO)

Sua própria história se confunde com a das instituições criadas a partir da Prelazia. “Meus irmãos estudaram no Colégio Nossa Senhora do Calvário, e a minha vida sempre esteve ligada à igreja. A educação que a gente teve nasceu desse trabalho.”

São histórias de mulheres, famílias e comunidades inteiras que encontraram na igrejinha um espaço de acolhimento, aprendizado e pertencimento.

Assim, a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro permanece viva não apenas em suas paredes centenárias, mas nas histórias de quem ajudou a construí-la todos os dias — uma história feita de fé, trabalho, educação e compromisso coletivo.

Memória que se transforma em registro

A programação comemorativa do centenário será marcada, no dia 25 de janeiro, pela inauguração da revitalização da Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, a partir das 7h da manhã. A entrega da obra simboliza não apenas a preservação de um patrimônio histórico e religioso, mas a continuidade de uma história que segue viva na fé, na memória e na identidade do povo de Guajará-Mirim.

Como parte das comemorações do centenário, a Assembleia Legislativa de Rondônia (Alero), também lança um documentário audiovisual sobre a Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A produção reúne, na íntegra, os depoimentos de padres, memorialistas e moradores que ajudaram a construir essa história. O documentário estará disponível no canal oficial da Assembleia Legislativa de Rondônia no YouTube, permitindo que o público conheça, em profundidade, as vozes que mantêm viva a memória da igrejinha.

Texto: Isabela Gomes | Jornalista Secom ALE/RO

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